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terça-feira, 6 de julho de 2010

jorge luis borges vs tame impala

[...]
uma das escolas de tlön chega a negar o tempo: raciocina
que o presente é indefinido, que o futuro não tem reali-
dade senão como esperança presente, e que o passado não
tem realidade senão como recordação presente*. outra es-
cola declara que já decorreu todo o tempo e que a nossa
vida é apenas a lembrança ou reflexo crepuscular, e sem
dúvida falseado e mutilado, de um processo irrecuperável.
outra, que a história do universo - e nela as nossas vi-
das e o pormenor mais ténue das nossas vidas - é a es-
crita que produz um deus subalterno para se entender com
um demónio. outra, que o universo é comparável a essas
criptografias em que não valem todos os símbolos e que
só é verdade o que sucede de trezentas em trezentas noi-
tes. outra, que enquanto dormimos aqui, estamos acorda-
dos noutro lado e que assim cada homem é dois homens.
[...]

*russell (the analysis of mind, 1921, página 159) supõe
que o planeta foi criado há poucos minutos, provido de
uma humanidade que «recorda» um passado ilusório.

- jorge luis borges -
(tlön, uqbar, orbis tertius)



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- tame impala -
(solitude is bliss)

terça-feira, 25 de maio de 2010

jorge luis borges vs uniform motion

arte poética

olhar o rio feito de tempo e água
e recordar que o tempo é outro rio,
saber que nos perdemos como o rio
e que os rostos passam como a água.

sentir que a vigília é outro sonho
que sonha não sonhar e que a morte
que teme nossa carne é essa morte
de cada noite, que se chama sonho.

ver no dia ou no ano um símbolo
dos dias do homem e de seus anos,
converter o ultraje dos anos
numa música, um rumor e um símbolo,

ver na morte o sonho, no ocaso
um triste ouro, assim é a poesia.
que é imortal e pobre. a poesia
volta como a aurora e o ocaso.

por vezes à tarde uma cara
olha-nos desde o fundo dum espelho;
a arte deve ser como esse espelho
que nos revela a nossa própria cara.

contam que ulisses, farto de prodígios,
chorou de amor ao avistar sua ítaca
verde e humilde. a arte é essa ítaca
de verde eternidade, não de prodígios.

também é como o rio interminável
que passa e fica e é vidro dum mesmo
heráclito inconstante, que é o mesmo
e é outro, como o rio interminável.

- jorge luis borges -
(trad, menino mau)


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- uniform motion -
(back up your soul)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

jorge luis borges vs jon hopkins

o sonho

se o sonho fosse (como dizem) uma
trégua, um puro repouso da mente,
porque é que, se te acordam bruscamente,
sentes que te roubaram uma fortuna?
porque é que é tão triste madrugar? a hora
despoja-nos dum dom inconcebível,
tão íntimo que só é traduzível
num torpor que a vigília doura
de sonhos, que bem podem ser reflexos
truncados dos tesouros da sombra,
e que o dia deforma nos seus espelhos.
quem serás esta noite no escuro
sonho, do outro lado do seu muro?

- jorge luis borges -
(el suenõ, trad menino mau)



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- jon hopkins -
(inside)