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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

istván örkény vs the doors

escolha

- bom dia, minha senhora!
- o que deseja o senhor?
- quero comprar um chapéu castanho.
- qual queria? tipo desportivo? mais modesto? de
abas largas?
- a senhora o que me aconselha?
- vamos experimentar este... é leve, não é muito
escuro, nem muito claro. o espelho é ali.
- acho que não me fica mal.
- como se tivesse sido talhado à sua medida.
- mas, sem querer maçá-la, faça o favor de me mos-
trar um outro modelo.
- com muito gosto. posso sugerir-lhe, por exemplo,
este aqui.
- realmente fica-me bem. nem sei qual deva escolher.
- se calhar um terceiro. muitos clientes costumam
elogiá-lo e fica-lhe tão bem como os outros dois.
- tem razão. qual é a diferença entre os preços dos
três chapéus?
- os preços são os mesmos.
- e as suas qualidades?
- tenho a certeza que nenhum é pior que os outros.
- então qual é a diferença dos três chapéus que ex-
perimentei?
- nenhuma, meu senhor. nem temos três chapéus de
homem.
- mas quantos têm?
- só um.
- então, foi aquele que eu experimentei três vezes
seguidas?
- sim, senhor. se me permite, qual vai escolher?
- não sei. talvez o primeiro.
- acho que aquele lhe assenta melhor, embora os
outros dois não fiquem atrás.
- não, não... mas agora insisto no primeiro chapéu.
- como o senhor quiser, bom dia

- istván örkény -

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- the doors -
(strange days)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

istván örkény vs alva noto

introdução aos contos de 1 minuto

eu gostaria de falar sobre os meus contos de 1 minuto, que
tipo de textos são estes, qual a sua particularidade, o seu
objectivo, etc.
então, primeiro, como o seu nome demonstra, são curtos.
duram meio ou um minuto, talvez um pouco mais. e como
são tão curtos, não é muito cansativo fazê-los.
talvez fosse melhor mostrar como se podem escrever contos
de um minuto. não é uma ocupação complicada, qualquer
pessoa que saiba ler e tenha bom gosto consegue aprender e,
depois de um pouco de exercício, se tiver uma meia hora livre,
senta-se e escreve alguns contos de um minuto. então, vamos
começar.
damos-lhe um título? qual? o título podia ser: conto de 1 mi-
nuto.
o resto vai de vento em popa.
agora vamos combinar de que tema trata o conto. sugiro que
não se gastemos tempo na procura de um tema. podemos es-
crever um conto de um minuto sobre qualquer coisa. sobre o
que acontece em casa, sobre o primeiro objecto que encon-
tramos por acaso, sobre a primeira coisa que nos passa pela
cabeça. porque, como numa gota que está no mar, em tudo o
que pensamos sentimos que está incluída a nossa vida intei-
ra. eu faço isto desta maneira há muitos anos e resultou mui-
to bem...
o resto é já brincadeira. agora só temos de ter cuidado para
sermos breves. isso também não é uma coisa difícil. devíamos
sempre pensar que o que sabemos também o sabem as outras
pessoas, que o que compreendemos qualquer outra pessoa é
capaz de compreender. portanto, não precisamos de falar mui-
to. a arte, em todo o caso, resume sempre, condensa. digamos,
por exemplo, que se alguém deseja comer canja, não compra a
sopa feita no supermercado, mas vai lá e compra um pequeno
cubo. leva-o para casa e faz uma sopa densa ou diluída, segun-
do o seu gosto.
do mesmo modo, o escritor condensa tudo o que tinha vivido e
pensado num pequeno cubo. o leitor também tem cabeça e
imaginação, que começam a funcionar logo que o escritor se
cala. temos de meter bem na cabeça que devemos evitar a in-
continência da linguagem.
façam o favor de ter presente isso quando começarem a escre-
ver contos de um minuto. o meu ponto de partida é que nós,
sempre que vivemos no mesmo país, e no mesmo século, te-
mos sonhos, grosso modo, idênticos. eu procurei sempre essa
coisa comum, o que é essencial, lembrado por todos. muitas
vezes uma só palavra é suficiente. uma só palavra pode ter,
efeito, tal como à noite, com um só toque, várias ruas ficam
iluminadas. às vezes penso que estes não são contos verdadei-
ros. se calhar devia dizer que eu só faço sinais. mas para fazer
sinais são precisas duas pessoas. uma que dá e a outra que re-
cebe. agora peço-lhes que abram a vossa imaginação perante
eles.

- istván örkény -
(histórias de 1 um minuto)


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- alva noto -
(prototype 1)