poiso a mão vagarosa no capô dos carros como se afagasse a crina dum cavalo. vêm mortos de sede. julgo que se perderam no deserto e o seu destino é apenas terem pressa. neste em- prego, ouço o ruído da engrenagem, o suave movimento do mundo a acelerar-se pouco a pouco. quem sou eu, no entanto, que balança tenho para pesar sem erro a minha vida e os sonhos de quem passa?
por um desvio semântico qualquer, que os filólogos ainda não estudaram, passámos a chamar manhã à infância das aves. de facto envelhecem quando a tarde cai e é por isso que ao anoitecer as árvores nos surgem tão carregadas de tempo.
dormir mas o sonho repassa duma insistente dor a lembrança da vida água outra vez bebida na pobreza da noite: e assim perdido o sono o olvido bates, coração, repetes sem querer o dia?
sente-se a variação na atmosfera do quarto; uma corrente de ar? com a porta, as janelas fechadas? o sopro vem talvez da estante: poemas, dicionários; como se a biblioteca desprendesse substâncias voláteis; ou que tentam voar; o frémito, o pressentimento, acorda os móveis fascinados; pouco a pouco, no aro do abat-jour, onde a diferença é mais sensível, condensa-se o rumor das primeiras palavras: afinal são elas; e logo que os seus voos; anteriores à escrita; as precipitam no papel, começa-se a escrever.