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domingo, 30 de agosto de 2009

josé régio vs mindazonaltal + anouar brahem

"vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
estendendo-me os braços, e seguros
de que seria bom que eu os ouvisse
quando me dizem: "vem por aqui!"
eu olho-os com olhos lassos,
(há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
e cruzo os braços,
e nunca vou por ali...

a minha glória é esta:
criar desumanidade!
não acompanhar ninguém.
- que eu vivo com o mesmo sem-vontade
com que rasguei o ventre a minha mãe

não, não vou por aí! só vou por onde
me levam meus próprios passos...

se ao que busco saber nenhum de vós responde
por que me repetis: "vem por aqui!"?

prefiro escorregar nos becos lamacentos,
redemoinhar aos ventos,
como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
a ir por aí...

se vim ao mundo, foi
só para desflorar florestas virgens,
e desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
o mais que faço não vale nada.

como, pois sereis vós
que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
para eu derrubar os meus obstáculos?...
corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
e vós amais o que é fácil!
eu amo o longe e a miragem,
amo os abismos, as torrentes, os desertos...

ide! tendes estradas,
tendes jardins, tendes canteiros,
tendes pátria, tendes tectos,
e tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
eu tenho a minha loucura !
levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
e sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

deus e o diabo é que guiam, mais ninguém.
todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
mas eu, que nunca principio nem acabo,
nasci do amor que há entre deus e o diabo.

ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
ninguém me peça definições!
ninguém me diga: "vem por aqui"!
a minha vida é um vendaval que se soltou.
é uma onda que se alevantou.
é um átomo a mais que se animou...
não sei por onde vou,
não sei para onde vou
- sei que não vou por aí!

- josé régio -
(cântico negro)



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- mindazonatal -
(untitled)

-anouar brahem -
(sur l'infini bleu)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

bertolt brecht vs anouar brahem

o coral do grande baal
(versão de 1955)


já no ventre da mãe baal crescia
estava o céu grande, baço, em acalmia
cheio de portentos, jovem e sem fundo
como baal o queria ao vir ao mundo

e o céu ali estava, em tristeza, alegria,
quando baal dormia, era feliz e não o via
de noite, ele violeta, baal embriagado:
baal de manhã santo, ele desmaiado

e baal calcorreia com indiferença
tascas, igrejas, hospitais sem parar,
não há cansaço, minha gente, que o vença,
baal arrasta o céu ao seu afundar.

no meio da escumalha dos pecadores
rebola-se baal, nu, sem histeria:
só o céu, mas sempre céu, senhores,
imponente, a nudez lhe cobria.

e a grande fêmea, a vida, que se of'rece
rindo àqueles que entre os joelhos aperta
deu-lhe algums gozos e ele agradece.
mas baal não morreu: ficou alerta.

e quando via mortos à sua volta
o prazer era sempre a dobrar.
tanto espaço, diz baal, há pouca malta.
tanto espaço, diz baal, dentro desta mulher.

se existe deus, se deus é uma invenção,
é indiferente, enquanto baal houver.
mas bem mais séria é para baal a opção
entre ter vinho ou não o ter.

se uma fêmea, diz baal, tudo vos der
deixai andar, que mais não deve ter!
uma mulher com homem não tem mal:
mas crianças teme-as até baal.

todos os vícios para alguma coisa servem
e diz baal, também o homem que os tem.
um vício é bom se souberes p'ra onde vais.
arranja dois: um deles está a mais!

não sejas sorna, que isso não dá prazer!
o que qu'remos, diz baal, é o que tem de ser.
se fizeres merda, diz baal, essa parada
é melhor do que não fazer nada.

mas não sejas tão sorna nem tão dócil
que o prazer, sabe deus, não é fácil!
é preciso membros fortes, experiências:
e às vezes não dá jeito a grande pança.

o prazer amolece, há que ser forte.
se der para o torto, deixa correr a sorte!
será eternamente jovem quem
noite após noite de si der cabo, e bem.

e se baal algum dia quebrar
alguma coisa, para por dentro a ver -
é pena lá isso é, mas é a brincar,
é sina a que baal não quer fugir.

e se a sina for suja - pois, paciência,
é de baal, dos pés à cabeça!
é a sina de baal, e ele quer-lhe bem -
até porque outra sina ele não tem!

aos abutres anafados que no céu
esperam por baal morto, ele pisca um olho
às vezes faz que morre. a ave desceu
e baal, mudo, come-a à ceia com molho.

no vale de lágrimas, sob estrelas de outono
baal devora vastos campos, mai mascando.
depois de os limpar, baal segue cantando
até à eterna floresta, e cai no sono.

e quando o ventre escuro o chama afinal,
o que é o mundo ainda? baal está farto.
tanto céu sob os olhos tem baal
que lhe chega de céu, mesmo já morto.

e já no escuro da terra apodrecia
e estava o céu grande, baço em acalmia
cheio de portentos e jovem e sem fundo
como baal o quis cá neste mundo.

- bertolt brecht -
(baal)

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- anouar brahem -
(raf raf)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

luigi pirandello vs akira kurosawa + anouar brahem

o homem da flor: (...) eu digo-lhe que preciso de me agarrar
através da imaginação à vida alheia, mas assim, sem prazer,
sem me interessar nada por ela, pelo contrário... pelo contrário...
para lhe sentir o fastio, para julgá-la insípida e fútil, a vida. a tal
ponto que não deva ter importância para ninguém por-lhe um
fim.
com raiva contida:
e era isso que era de demonstrar, está a ver? com provas e
exemplos contínuos, a nós próprios, implacavelmente. porque,
caro senhor, nós não sabemos de que coisa é feito, mas é que,
é que, todos o sentimos aqui, como um nó na garganta, o sabor
da vida, sempre insatisfeita, que nunca se pode satisfazer,
porque a vida, no próprio acto de a vivermos, é assim, sempre
ávida de si mesma, não se deixa saborear. o saber está no
passado, que permanece vivo cá dentro. o gosto da vida
vem-nos daí, das recordações que nos têm amarrados. mas
amarrados a quê? a esta sensaboria aqui... a este tédio...
a tantas estúpidas ilusões... insípidas ocupações... sim, sim.
isto que agora, aqui, é uma sensaboria... isto que agora é
para nós uma desventura, uma verdadeira desventura...
sim senhor, à distância de quatro, cinco, dez anos, quem sabe
que sabor terá tomado... que gosto, estas lágrimas... e a vida,
santo deus, só o pensar em perdê-la... especialmente quando
se sabe que é uma questão de dias... (...)

- luigi pirandello -
(o homem da flor na boca)


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- akira kurosawa-
(ikiru)

- anouar brahem -
(talwin)