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quinta-feira, 29 de abril de 2010

robert musil vs ebony bones

como acontece com muitos homens que chegaram a uma
situação importante, esse sentimento consistia, longe
de qualquer egoísmo, num amor profundo pelo que é útil,
digamos, a um nível universal e supra-pessoal; por ou-
tras palavras, numa veneração sincera por aquelas coi-
sas sobre as quais construímos o que nos é vantajoso,
não pela simples razão de o construirmos mas em harmo-
nia e em concomitância com isso e por razões de ordem
geral. trata-se de uma questão de grande importância:
um cão de raça procura o seu lugar debaixo da mesa,
insensível aos pontapés, não porque é cão e se rebaixa,
mas por dedicação e fidelidade; também na vida os in-
divíduos frios e calculistas não conseguem metade do
êxito alcançado por aquelas almas mais perfeitamente
equilibradas capazes de nutrir pelas pessoas e pelas
situações que lhes são proveitosas sentimentos verda-
deiramente profundos.

- robert musil -
(o homem sem qualidades)



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- ebony bones -
(don't fart on my heart)

terça-feira, 23 de março de 2010

robert musil vs damon albarn & world music police

mas muitos se perguntarão se afinal este mundo anda
tanto às avessas que seja preciso estar sempre a dar-
-lhe a volta. o próprio mundo há muito tempo que deu
duas respostas a essa pergunta. de facto, desde que o
mundo é mundo que a maior parte das pessoas, na sua
juventude, acha que ele deve ser virado do avesso.
achavam ridículo que os mais velhos se agarrassem à
ordem existente e pensassem com o coração, que é um
pedaço de carne, em vez de o fazerem com o cérebro.
essas pessoas mais novas sempre consideraram que a
estupidez moral dos mais velhos era também sinal de
uma incapacidade de estabelecer novas relações, tal
como a vulgar estupidez intelectual; a moral que lhes
é própria é uma moral da realização, do heroísmo e da
mudança. no entanto, mal chegam à idade madura, es-
quecem tudo isso e nem querem ouvir falar dela.

- robert musil -
(o homem sem qualidades)



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- damon albarn & world music police -
(nabintou diakite)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

robert musil vs schönberg

muitíssimas pessoas se sentem hoje numa lamentável
oposição a igual número de outras. é uma das mais
arreigadas características da civilização: o indivíduo
tem sempre uma enorme desconfiança em relação aos que
vivem fora do seu meio.
(...)
afinal, uma coisa só existe porque tem limites, e por isso
essa existência é em si um acto hostil em relação ao que
a envolve. sem o papa, não teria havido lutero, e sem os
pagãos não haveria papa; por isso, não se pode negar que
a mais profunda aproximação do ser humano ao seu se-
melhante consiste na sua rejeição dele.

- robert musil -
(o homem sem qualidades)



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- schönberg -
(op. 21, dreimal sieben gedichte aus albert girauds pierrot lunaire, enthauptung)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

robert musil vs eldar

num tecido social irrigado por energias, todos os caminhos
levam a um fim bom em si, se não hesitarmos e reflectirmos
por muito tempo. os objectivos estão próximos; mas também
a vida é curta, e assim se obtém o máximo proveito, e de
mais não precisa uma pessoa para ser feliz: porque aquilo
que se alcança é que dá forma à alma, ao passo que aquilo
que se persegue sem o atingir a deforma. a felicidade de-
pende muito pouco daquilo que se quer, realiza-se apenas
com aquilo que se alcança. para além disso, a zoologia
ensina-nos que um número de indivíduos limitados pode
constituir um todo genial.

- robert musil -
(o homem sem qualidades)



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- eldar -
(horus [with erg])

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

robert musil vs nebulo

se quisermos passar sem problemas por portas abertas,
é bom não esquecer que elas têm ombreiras sólidas; este
princípio segundo o qual o velho professor sempre tinha
vivido, mais não é do que uma exigência do sentido de
realidade. ora, se existe um sentido de realidade - e nin-
guém duvidará de que ele tem direito à existência - , en-
tão também tem de haver qualquer coisa a que possamos
chamar o sentido de possibilidade.
aquele que o possui, não diz, por exemplo: isto ou aquilo
aconteceu, vai acontecer, tem de acontecer aqui, mas in-
ventará: isto ou aquilo poderia, deveria, teria de aconte-
cido aqui. e quando lhe dizem que uma coisa é como é,
ele pensa: provavelmente, também poderia ser diferente.
assim, poderia definir-se o sentido de possibilidade como
aquela capacidade de pensar tudo aquilo que também po-
deria ser e de não dar mais importância àquilo que é do
que aquilo que não é. como se vê, as consequências desta
disposição criadora podem ser notáveis; infelizmente, não
é raro que façam aparecer como falso aquilo que as pes-
soas admiram e como lícito aquilo que elas proíbem, ou
então as duas coisas como sendo indiferentes. esses ho-
mens do possível vivem, como se costuma dizer, numa
trama mais subtil, numa teia de névoa, fantasia, sonhos
e conjuntivos; se uma criança mostra tendências destas,
acaba-se firmemente com elas, e diz-se-lhe que tais pes-
soas são visionários, sonhadores, fracos, gente que tudo
julga saber melhor e em tudo põe defeito.
quando se quer elogiar estes loucos, chama-se-lhes tam-
bém idealistas, mas é claro que com isso só se alude à
natureza débil, incapaz de compreender a realidade, ou
que evita por melancolia, uma natureza na qual a falta
do sentido de realidade é um verdadeiro defeito.
o possível, porém, não abarca apenas os sonhos dos neu-
rasténicos, mas também ainda os desígnios ainda ador-
mecidos de deus. uma experiência possível ou uma ver-
dade possível não são iguais a uma experiência real e
uma verdade real menos o valor da sua realidade, mas
têm, pelo menos do ponto de vista dos seus partidários,
algo de muito divino, um fogo, um ímpeto, uma vontade
de construir e um utopismo consciente que não teme a
realidade, antes vê nela uma missão e uma invenção.

- robert musil -

(o homem sem qualidades)


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- nebulo -
(wen)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

robert musil vs max richter

os automóveis saíam de ruas estreitas e fundas e para a luz clara
e neutra das praças. as manchas escuras dos peões desenhavam
cordões nebulosos. nos pontos em que as linhas mais fortes dos
mais apressados cruzavam os fluxos mais tranquilos, esses cordões
engrossavam, escorriam depois mais depressa e, após algumas
oscilações, retomavam o seu ritmo regular. centenas de sons
entreteciam-se num ruído metálico de onde saíam aqui e ali
algumas pontas, arestas cortantes que se alongavam e retraíam,
estilhaços de notas límpidas que logo se desvaneciam. este ruído,
cuja singularidade se não pode descrever, seria suficiente para que
alguém, mesmo depois de muitos anos de ausência, pudesse reconhecer
de olhos fechados que se encontrava em viena, cidade capital e
residencial do império. as cidades, como os homens, reconhecem-se
pelo passo.

- robert musil -
(o homem sem qualidades)


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- max richter -
(a sudden manhattan on the mind)