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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

italo calvino vs johann sebastian bach

o diabo deve ser a carta que no meu ofício mais se encontra
com maior frequência: não será toda a matéria-prima do es-
crever um emergir de garras peludas, de mordeduras cani-
nas, de cornadas de cabra, violências impedidas que se deba-
tem nas trevas? mas isto pode-se ver de duas maneiras: que
este formigueiro demoníaco dentro das pessoas singulares e
plurais, nas coisas feitas ou que se julga feitas e nas palavras
ditas ou que se julga dizer, é uma maneira de fazer e de dizer
que não parece bem, e convém suprimir tudo, ou então que,
pelo contrário, é o que mais conta e já que existe será acon-
selhável fazê-lo aparecer; duas maneiras de ver as coisas
que depois por sua vez se misturam de variadas formas,
porque poderá acontecer que o negativo por exemplo seja
negativo mas necessário, pois sem ele, o positivo não é po-
sitivo, ou que não seja negativo de modo nenhum, enquanto
o único negativo quando muito é o que se julga positivo.

- italo calvino -
(taberna dos destinos cruzados)


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- johan sebastian bach (keith jarrett) -
(goldberg variations [variation 16])

quarta-feira, 8 de julho de 2009

rainer werner fassbinder vs johann sebastian bach

talhante: a prisão é uma prova. o tempo amadurece-te e passa.

rapariga: o tempo nunca fica mais curto. é enorme, à minha
frente - como a eternidade. será que é a eternidade?

talhante: isso é muito triste, não ajuda. pensa assim, tens uma
pessoa que te acorda de manhã e que partilha a cela contigo.
dia e noite. mesmo quando dormes ela está lá.

rapariga: mas deve sentir-se qualquer coisa. eu não sinto o teu
deus. e isso põe-me doente.

talhante: a doença está só na tua cabeça. não corrói os teus
membros, não te paralisa as articulações. e há orações contra
os maus pensamentos. com humildade te rogo, divindade
escondida, por exemplo, e ó santo alimento, e do fundo da
minha desgraça eu te chamo.

rapariga: isso é a tortura a que estamos condenados.
o tempo com essas tuas orações custa muito mais a passar.
o rosário arde na minha mão. o fogo no purgatório...

talhante: o sofrimento vai diminuindo à medida que é sofrido,
consome-se e ganha sentido.

rapariga: ó espírito e roupa, estrela e flor, amor, eternidade,
tempo e dor.

talhante: tu não sofres com a fome, não sofres com a sede,
não sofres com ódio nem com amor - só sofres com o
sofrimento...

rapariga: ó liberta-me!

- rainer werner fassbinder -
(sangue no pescoço do gato)



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- johann sebastian bach -
(aus tiefer not schrei ich zu dir - bwv 686)